sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Royalties - Bullying Federativo

 
Então já estão decidindo o que fazer com os royalties do Rio de Janeiro ? Para quem não sabe os royalties do petroleo do Rio são uma compensação a constituição de 1988, na qual o José Serra, o politico mais nefasto que já apareceu nesse país, negociou em troca da isenção do ICMS do petróleo na fonte. Isso significa que que o petróleo extraído no Rio é a única riqueza mineral que não gera ICMS ao estado produtor. Os royalties foram a compensação.

E agora, estados sem nenhum pudor e de olho gordo se reuniram num arrastão e resolveram tirar inclusive os royalties do Rio. Seria como se os gauchos exigissem royalties pelo ferro extraído em Minas. Um absurdo. E pouco importa aos outros estados se essa renda já esta incorporada as finanças do estado há décadas. Nem cogitam nenhum tipo de repercussão. Os fluminenses e cariocas que se danem. Não bastasse o Governo do Rio concordar em abdicar dos campos do pré-sal a serem explorados, a cobiça alheia é tamanha que querem tirar inclusive os royalties dos campos que já produzem a anos.


 Há antes de tudo uma questão de falta de caráter ai.. concordam ?

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Aparecida - A santa que não apareceu


O culto de Nossa Senhora Aparecida foi instituído oficialmente pela Igreja Católica em 1904. Na ocasião o Núncio Apostólico no país procurava um culto para representar um padroeiro nacional para o Brasil. A escolha recaiu sobre controverso fato ocorrido em 1743, no qual um grupo de três pescadores teria encontrado uma estátua de terracota escura (argila) sem cabeça representando Nossa Senhora da Conceição no fundo do rio Paraiba do Sul na altura de Guaratinguetá (SP).
 
Ao contrário do que imaginam muitos fiéis, nunca houve uma "aparição" de nossa senhora e sim apenas o achado de uma estátua de barro quebrada. O motivo pelo qual a imagem se encontrava no fundo do rio Paraíba é que, durante o período colonial, as imagens sacras eram jogadas em rios ou enterradas quando quebradas. Também é controverso atribuir a figura da "santa" como sendo de raça negra, pelo simples fato de que a argila utilizada para sua moldagem era escura como era comum em muitas imagens de santos confeccionados na região de Santana do Parnaíba.
 
Apesar da inconsistência e fragilidade do "milagre" da estátua - os pescadores teriam pescado muitos peixes no dia que acharam a estátua - isso foi suficiente para que o Núncio Apostólico mistificasse a "santa" e a torna-se Padroeira do Brasil.

A santa padroeira do Brasil é portanto mais um exemplo acabado das manipulações e mistificaçôes da Igreja Católica no mundo. Uma santa encomendada..

sábado, 29 de setembro de 2012

Monteiro Lobato e a Ku Klux Klan


A censura ao livro Aventuras de Pedrinho é apenas a ponta do Iceberg do racismo do escritor Monteiro Lobato. Há muita gente interessada em salvar a reputação de um dos poucos escritores paulistas que rompeu as fronteiras do estado. Lobato era mais que racista, era um EUGENISTA. Declarou em carta a um amigo que usaria a Literatura para disseminar os princípios da Eugenia e estimular a sua prática. E seguiu para os Estados Unidos com a proposta de escrever sobre o tema, para ganhar grana alta - era ambicioso. Só que não se deu muito bem. Ninguém lá se interessou pela proposta dele, que voltou para o Brasil com o rabo entre as pernas. Aqui chegando lamentou a falta de uma Ku Klux Klan no Brasil. O que significa isto? Que tornou-se um prostituto da Literatura. Tem pessoas que dizem que por ser a Eugenia uma espécie de modus operandi político-científico predominante na época, era portanto natural essa inclinação dos intelectuais daquele tempo para tal prática criminosa, pois todos sabem que o princípio da Eugenia é a purificação da raça humana pela eliminação das etnias destoantes e dos seres humanos considerados "anormais" por problemas mentais e físicos. Mas considerar que todos os intelectuais da época avalizavam a Eugenia é um absurdo, pois, exemplificando, os Filósofos Humanistas anteriores a Lobato jamais apoiaram tal prática desumana. Este crime de Lobato - apoiar a Eugenia e contribuir para a sua expansão - é injustificável e, portanto, passível de REPARO no que concerne às suas consequências nas crianças de cor negra que hoje têm acesso à sua obra. O MEC está agindo de forma LEGAL, protegendo o Direito Constitucional dessas crianças. O Estado faz muito bem, pois, em cercar de todo cuidado o uso de sua obra pelas crianças. Obra com toques de racismo e eugenia. Portanto, de alto teor ofensivo à sensibilidade humana."
Professora Leila Brito (UFF)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Formas Alternativas de Relações Estáveis


Em busca de harmonia, alguns casais estão adotando arranjos conjugais que fogem à tradição. A experiência, está provado, tende a dar muito certo quando o estilo de relacionamento definido, a modalidade de moradia escolhida e a frequência dos encontros realmente expressam o gosto de cada um e os propósitos de ambos.

Eis uma situação: ambos residem no quinto andar; ele, no 51; ela, no 52. Eliminaram a parede que separava dois quartos e fizeram um aposento mais amplo, com dois banheiros. A leste, mora ela. A oeste, ele. A filha, uma jovem adulta, vive com a mãe. O filho adolescente, com o pai. O marido assina um jornal; a mulher, outro. Ele tem uma faxineira, que comparece duas vezes por semana. Ela tem uma empregada fixa. Cada um faz suas compras e gerencia a casa em consonância com seus hábitos pessoais. Cada um paga as próprias contas e ambos constroem um patrimônio comum. Por sorteio, definiram que a empregada dela limparia o quarto do casal. Há ocasiões em que ele a convida para provar o prato gourmet que ele inventou, da mesma forma como ela o recebe para jantar duas vezes por semana. Um não dá palpite na organização da residência do outro. Seus gostos são muito distintos. Foi uma luta chegarem à escolha dos componentes do quarto compartilhado. Vivem bem e sentem que boa parte de sua harmonia se deve a esse jeito de organizar suas vidas.

Outra situação: ele mora em uma cidade; ela, em outra. Passam juntos a maior parte dos fins de semana — na casa de um, na de outro, ou viajando. Sentem saudade e acham que isso colabora com a alegria dos encontros. Os dois filhos mais velhos moram com o pai. A mais nova, com a mãe. Nos finais de semana, cada jovem vai para um canto, ou todos se reúnem na casa de praia da família.
Terceiro arranjo: os parceiros moram em bairros distantes. Falam-se todos os dias ao telefone ou trocam e-mails. Curtem os finais de semana na casa de um dos dois e aos domingos recebem os filhos dos casamentos anteriores para o almoço, que preparam juntos. Vivem assim há seis anos. Consideram-se namorados e estão felizes.

Um casamento conduzido em moldes tradicionais pode ser muito bom, mas muitas pessoas, embora o tenham escolhido, passam a sentilo como uma espécie de prisão, uma situação restritiva, e até impeditiva, a uma série de propósitos, de objetivos, de desejos. Há quem se sinta desconfortável com as numerosas tarefas, as interações, a casa movimentada, quando sua preferência seria por mais momentos de silêncio, ou pela simples liberdade de ocupar toda a cama na hora de dormir, coisas assim. Então, começam as queixas relativas à falta de liberdade e aos comportamentos compulsórios que se adotam com o casamento — além, claro, de uma certa nostalgia em relação à vida anterior.
Se nessa hora o casal tiver a tranquilidade necessária para discutir e identificar os problemas, poderá escolher um outro jeito de levar a relação, uma modalidade conjugal alternativa, que respeite os gostos e as preferências de cada um. Tudo em prol da harmonia da vida coletiva, que muitas vezes inclui filhos. Como já disse antes, porém, o sucesso da experiência dependerá da franca aceitação do arranjo pelos parceiros, com critério, discernimento e amorosidade.

Alberto Lima, psicoterapeuta junguiano

terça-feira, 31 de julho de 2012

PSDB quer censurar Blogs


Serra quer censurar blogs
por Marcos Coimbra

Uma das sabedorias antigas dos mineiros ensina que, na política, não existem gestos gratuitos. Todos têm consequência.
E não só para quem os pratica. Muitas vezes, os efeitos de um ato individual atingem correligionários e companheiros.
Podem, por exemplo, afetar de maneira ampla a imagem do partido a que pertencem. Mudam a percepção da sociedade a respeito de seus integrantes. Quando é para o bem, ótimo. Mas pode ser para o mal.
Nesses casos, o ônus é compartilhado. Todos pagam por ele. A decisão da Executiva Nacional do PSDB de recorrer à Justiça contra os “blogueiros sujos” que o criticam é um desses.
O verdadeiro inspirador da ação foi o candidato do partido a prefeito de São Paulo, mas suas consequências negativas não se circunscrevem a ele. O gesto de Serra alcança coletivamente os tucanos.
Em si, é apenas uma reação tola. Que expectativa de sucesso tem o ex-governador? Será que acredita que conduzir o PSDB a uma cruzada contra os responsáveis por blogs que antipatizam com ele redundará em alguma vantagem para sua candidatura?
Movido por sua insistência, o partido representou à Procuradoria-Geral Eleitoral para denunciar o “uso de recursos públicos” no financiamento de “blogs, sites e organizações” que funcionariam como “verdadeiras centrais de coação e difamação de instituições democráticas”.
Na prática, o que o PSDB pretende é que empresas e bancos estatais sejam proibidos de comprar espaço publicitário em blogs contrários ao partido e às suas lideranças. A argumentação de que é movido pelo zelo de proteger as instituições é fantasiosa. Aliás, sequer cabe aos partidos políticos esse papel.
O que Serra quer mesmo — e não é de hoje – é impedir a manifestação de seus adversários.
Talvez tenha se acostumado com a convivência que mantém com alguns veículos e comentaristas da nossa indústria de comunicação. De tanto vê-los defendendo seus pontos de vista e acolhendo suas opiniões, convenceu-se que os críticos não mereceriam lugar para se expressar.
O fascinante na argumentação é que não o incomoda (ou a seu partido) que existam “blogs, sites e organizações (?)” — bem como revistas, jornais e emissoras de televisão e rádio — que recebam investimentos em propaganda do setor público e façam oposição até agressiva ao governo.
Parece que acham isso natural e que tais aplicações se justificariam tecnicamente. Se determinado veículo tem leitores, não haveria porque excluí-lo do plano de mídia de uma campanha de interesse de um órgão ou empresa pública. Fazê-lo equivaleria a puni-lo por um crime de opinião.
Se vale para os órgãos de comunicação hostis ao governo e ao “lulopetismo”, por que não se aplicaria no caso inverso? Seria errado anunciar em blogs com visitação intensa, apenas porque seus responsáveis não simpatizam com os tucanos?
Ou Serra e seu partido aplaudiriam se o governo proibisse que seus órgãos comprassem espaço publicitário na imprensa oposicionista?
A decisão sobre a alocação dessas verbas pode ser questionada com base em critérios objetivos: tem determinada emissora suficiente audiência para cobrar seus preços? Aquele jornal tem a circulação que afirma? O blog ou site em questão tem volume relevante de acessos?
Fora disso, é apenas castigar — ou querer castigar — quem tem opinião diferente.
Engraçado lembrar o destaque que o PSDB e suas figuras de proa, como Fernando Henrique, veem dando à internet na discussão do futuro do partido. Tomara que não pensem como Serra: que na internet só podem ficar os “limpos” — que os que o aplaudem, pois os “sujos” — que o questionam – devem ser banidos.

Solidão S.A.

Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver. Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercado por pessoas com ter amigos. Sem ela me manterei aturdido, ocupado, agendado só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazio em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei. Solidão é o lugar onde encontro a mim mesmo, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser. Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais a solidão pode ser proteção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo a solidão pode ser liberdade e não fracasso. Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia. Preciso estar em mim para estar com outros. Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários. Queremos amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia. Queremos abraços, toques, afeto. Mas, ainda assim, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz. O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra. Ouse a solidão e fique em ótima companhia.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A Venezuela que você não verá na Globo


POR QUE OS VENEZUELANOS SÃO O POVO MAIS FELIZ DA AMÉRICA DO SUL
Por PAULO NOGUEIRA


Me interesso muito pelas listas de felicidade nos países mundo afora. Em geral, elas combinam dados sociais e entrevistas nas quais um grupo representativo de pessoas diz qual é seu grau de felicidade numa escala de 1 a 10.
Foi ao ver uma delas, em que a Dinamarca estava na ponta e seus vizinhos nas primeiras colocações, que acabei conhecendo pessoalmente a Escandinávia. Era 2009, e fui para Copenhague para entender o que estava por trás da satisfação dos dinamarqueses. Fiz uma reportagem para a Época, da qual era então correspondente.
Bem, de lá para cá, sempre que posso vou à Escandinávia. Agora mesmo, poucos dias atrás, estive na Noruega e na Dinamarca em missões jornalísticas.
O modelo escandinavo é a coisa mais fascinante que encontrei na Europa. Combina as virtudes do capitalismo com as do socialismo de uma maneira extremamente bem sucedida.
Repare. Em todas as listas relativos a avanço social, a Escandinávia domina.

Bem, fiz este intróito porque outro dia vi uma lista da Gallup que colocava os venezuelanos como o quinto povo mais feliz do mundo.
Um levantamento da universidade americana de Columbia e chancelado pela ONU trouxe também os venezuelanos numa situação invejável: o povo mais feliz da América do Sul.
Como? Mas não é um inferno a Venezuela? Chávez não é o Satã?
Como curioso que sou, fui pesquisar para tentar entender.
Fui dar num estudo feito por um instituto americano chamado CEPR, baseado em Washington: “A Economia Venezuelana nos anos de Chávez”. O CEPR jamais poderia ser desqualificado como “chavista”.
E então fico sabendo coisas como essas:

1) Em 1998, quando Chávez assumiu o poder, havia 1628 médicos para uma população de 23,4 milhões. Dez anos mais tarde, eram quase 20 000 médicos para uma população de 27 milhões.
2) Os gastos sociais subiram de 8,2% do PIB, em 1998, para quase 14%. “Se comparamos a taxa de pobreza pré-Chávez (43,9%) com a registrada dez anos depois (27,5%), chegamos a uma queda de 37% no número de venezuelanos pobres”, afirma o estudo.
3) O índice de desemprego, que era de 19% em 1998, caiu pela metade.
No trabalho, os autores notam que a percepção entre os americanos sobre a Venezuela de Chávez é ruim. Motivo: a cobertura enviesada da mídia. E, com números, desmontam o mito de que o segredo do avanço da Venezuela está no petróleo e apenas nele.



Mas eu queria saber mais.
Dei no site do Jazeera, uma emissora árabe bancada pelo Catar que faz jornalismo de primeira qualidade. O Jazeera traz vozes que você não costuma encontrar na imprensa brasileira, e isso ajuda você a entender melhor o mundo.
Vi um programa jornalístico cujo título era: “Os venezuelanos estão melhor sob Chávez?” Como sempre, o Jazeera colocou especialistas com visão diferente. Um comentarista americano criticou o “espírito de mártir” de Chávez.
Mas os dados objetivos ninguém contestou. A mortalidade infantil diminuiu, a expectativa de vida aumentou, o número de universitários cresceu e as crianças venezuelanas testão indo à escola numa quantidade sem paralelo na história do país.
Um consultor americano de empresas interessadas em investir no exterior disse: “Quem quer que queira se eleger na Venezuela vai ter que dar prosseguimento aos programas sociais”.
Problemas? Muitos. Criminalidade alta, pobreza e desigualdade ainda elevadas. Mas atenção: os problemas antes eram muito maiores. (Vale a pena ver o premiado documentário do jornalista australiano John Pilger, radicado na Inglaterra, sobre o papel dos Estados Unidos na América do Sul. O nome é Guerra contra a Democracia. Ele está disponível, em fatias, no YouTube, com legendas em português. Pilger visitou a Venezuela e entrevistou Chávez.)
Da imersão em Venezuela, compreendi por que Chávez é tão popular – e por que seu maior adversário nas eleições futuras é, na verdade, o câncer.

Paulo Nogueira é jornalista e está vivendo em Londres. Foi editor assistente da Veja, editor da Veja São Paulo, diretor de redação da Exame, diretor superintendente de uma unidade de negócios da Editora Abril e diretor editorial da Editora Globo.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Porque os Estados Unidos Fracassaram


Resenha do livro Porque os Estados Unidos Fracassaram
Paulo Nogueira

Morris Berman, 67 anos, é um acadêmico americano que vale a pena conhecer.
Acabo de ler “Por Que os Estados Unidos Fracassaram”, dele. A primeira coisa que me ocorre é: tomara que alguma editora brasileira se interesse por este pequeno – 196 páginas — grande livro.
A questão do título é respondida amplamente. Você fecha o livro com uma compreensão clara sobre o que levou os americanos a um declínio tão dramático.
O argumento inicial de Berman diz tudo. Uma sociedade em que os fundamentos são a busca de status e a aquisição de objetos não pode funcionar.
Berman cita um episódio que viu na televisão. Uma mulher desabou com o rosto no chão em um hospital em Nova York. Ela ficou tal como caiu por uma hora inteira, sob indiferença geral, até que finalmente alguém se movimentou. A mulher já estava morta.
“O psicoterapeuta Douglas LaBier, de Washington, tem um nome para esse tipo de comportamento, que ele afirma ser comuníssimo nos Estados Unidos: síndrome da falta de solidariedade”, diz Berman. “Basicamente, é um termo elegante para designar quem não dá a mínima para ninguém senão para si próprio. LaBier sustenta que solidariedade é uma emoção natural, mas logo cedo perdida pelos americanos porque nossa sociedade dá foco nas coisas materiais e evita reflexão interior.”
Berman afirma que você sente no ar um “autismo hostil” nas relações entre as pessoas nos Estados Unidos. “Isso se manifesta numa espécie de ausência de alma, algo de que a capital Washington é um exemplo perfeito. Se você quer ter um amigo na cidade, como Harry Truman disse, então compre um cachorro.”


O americano médio, diz ele, acredita no “mito” da mobilidade social. Berman nota que as estatísticas mostram que a imensa maioria das pessoas nos Estados Unidos morrem na classe em que nasceram. Ainda assim, elas acham que um dia vão ser Bill Gates. Têm essa “alucinação”, em vez de achar um absurdo que alguém possa ter mais de 60 bilhões de dólares, como Bill Gates.
“Estamos assistindo ao suicídio de uma nação”, diz Berman. “Um país cujo propósito é encorajar seus cidadãos a acumular mercadorias no maior volume possível, ou exportar ‘democracia’ à base de bombas, é um navio prestes a afundar. Nossa política externa gerou o 11 de Setembro, obra de pessoas que detestavam o que os Estados Unidos estavam fazendo com os países delas. A nossa política (econômica) interna criou a crise mundial de 2008.”
A soberba americana é sublinhada por Berman em várias situações. Ele cita, por exemplo, uma declaração de George W Bush de 1988: “Nunca peço desculpas por algo que os Estados Unidos tenham feito. Não me importam os fatos.” Essa fala foi feita pouco depois que um navio de guerra americano derrubou por alegado engano um avião iraniano com 290 pessoas a bordo, 66 delas crianças. Não houve sobreviventes.
Berman evoca também a Guerra do Vietnã. “Como entender que, depois de termos matado 3 milhões de camponeses vietnamitas e torturado dezenas de milhares, o povo americano ficasse mais incomodado com os protestos antiguerra do que com aquilo que nosso exército estava fazendo? É uma ironia que, depois de tudo, os reais selvagens sejamos – nós.”
Você pode perguntar: como alguém que tem uma visão tão crítica – e tão justificada – de seu país pode viver nele?
A resposta é que Berman desistiu dos Estados Unidos. Ele vive hoje no México, que segundo ele é visceralmente diferente do paraíso do narcotráfico pintado pela mídia americana — pela qual ele não tem a menor admiração. “Mudei para o México porque acreditava que ainda encontraria lá elementos de uma cultura tradicional, e acertei”, diz ele. “Só lamento não ter feito isso há vinte anos. Há uma decência humana no México que não existe nos Estados Unidos.”

terça-feira, 19 de junho de 2012

10 Mandamentos de Osho


Em 1970 perguntaram a Osho pelos seus 10 mandamentos.
Esta foi sua resposta: " Você pergunta pelos meus dez mandamentos. Isso é muito difícil, porque eu sou contra qualquer tipo de mandamento. Todavia, só pela brincadeira, eu estabeleço o que se segue:

1. Não obedeça a ordens, exceto àquelas que venham de dentro.
2. O único Deus é a própria vida.
3. A verdade está dentro, não a procure em nenhum outro lugar.
4. O amor é a oração.
5. O vazio é a porta para a verdade, é o meio, o fim e a realização.
6. A vida é aqui e agora.
7. Viva completamente acordado.
8. Não nade, flutue.
9. Morra a cada momento para que você possa se renovar a cada momento.
10. Pare de buscar. O que é, é: pare e veja."

Para ser Feliz é preciso ter Coragem


Por que tantas pessoas parecem tão obtusas, tão entediadas, simplesmente levando a vida de qualquer jeito?

Desperdiçando um tempo imensamente valioso que nunca serão capazes de recuperar - e desperdiçando com tal tédio, como se estivessem esperando a morte.
O que aconteceu com essas tantas pessoas? Por que elas não têm o mesmo frescor que as árvores? Por que o ser humano não tem a mesma canção que os pássaros? O que aconteceu com os seres humanos?
Aconteceu uma coisa: o ser humano imita os outros, tenta ser como outra pessoa. Ninguém está em casa; todos estão batendo à porta de uma outra pessoa; daí o descontentamento, o tédio, o embotamento, a angústia.
Uma pessoa inteligente tentará ser apenas ela mesma, seja qual for o custo. Ela nunca copiará, nunca imitará, nunca será como um papagaio; ela escutará sua própria chamada intrínseca, sentirá seu próprio ser e caminhará de acordo com ele, seja qual for o risco.
Há risco! Quando você copia os outros, há menos riscos. Quando você não copia ninguém, você está sozinho - há risco! Mas a vida acontece somente para aqueles que vivem perigosamente, para aqueles que são aventureiros, corajosos, atrevidos - a vida acontece somente a eles. A vida não acontece para pessoas mornas.
Osho, em "Inteligência - A Resposta Criativa ao Agora"

Inteligencia Espiritual

 No início do século 20, o QI era a medida definitiva da inteligência humana. Só em meados da década de 90, a descoberta da inteligência emocional mostrou que não bastava o sujeito ser um génio se não soubesse lidar com as emoções.A ciência começa o novo milênio com descobertas que apontam para um terceiro quociente, o da inteligência espiritual. Ela nos ajudaria a lidar com questões essenciais e pode ser a chave para uma nova era no mundo dos negócios.

Drª Dana Zohar - Oxford

No livro QS - Inteligência Espiritual, lançado no ano passado, a fí­sica e filósofa americana Dana Zohar aborda um tema tão novo quanto polêmico: a existência de um terceiro tipo de inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado par a a vida. Ela baseia seu trabalho sobre Quociente Espiritual (QS) em pesquisas só há pouco divulgadas de cientistas de várias partes do mundo que descobriram o que está sendo chamado "Ponto de Deus" no cérebro, uma área que seria responsável pelas experiências espirituais das pessoas. O assunto é tão atual que foi abordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas Neewsweek e Fortune. Afirma Dana: "A inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna. Vivemos numa cultura espiritualmente estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual".

Aos 57 anos, Dana vive em Inglaterra com o marido, o psiquiatra Ian Marshall, co-autor do livro, e com dois filhos adolescentes. Formada em fí­sica pela Universidade de Harvard, com pós-graduação no Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), ela atualment e leciona na universidade inglesa de Oxford. É autora de outros oito livros, entre eles, O Ser Quântico e A Sociedade Quântica, já traduzidos para português. QS - Inteligência Espiritual já foi editado em 27 idiomas, incluindo o português (no Brasil, pela Record). Dana tem sido procurada por grandes companhias interessadas em desenvolver o quociente espiritual de seus funcionários e dar mais sentido ao seu trabalho. Ela falou à EXAME em Porto Alegre durante o 300º Congresso Mundial de Treinamento e Desenvolvimento da International Federation of Training and Development Organization (IFTDO), organização fundada na Suécia, em 1971, que representa 1 milhão de especialistas em treinamento em todo o mundo. Eis os principais trechos da entrevista:

O que é inteligência espiritual?
É uma terceira inteligência, que coloca nossos atos e experiências num contexto mais amplo de sentido e valor, tornando-os mais efetivos. Ter alto quociente espiritual (QS) implica ser capaz de usar o espiritual para ter uma vida mais rica e mais cheia de sentido, adequado senso de finalidade e direção pessoal. O QS aumenta nossos horizontes e nos torna mais criativos. É uma inteligência que nos impulsiona. É com ela que abordamos e solucionamos problemas de sentido e valor. O QS está ligado à  necessidade humana de ter propósito na vida. É ele que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas ações.

De que modo essas pesquisas confirmam suas idéias sobre a terceira inteligência?
Os cientistas descobriram que temos um "Ponto de Deus" no cérebro, uma área nos lobos temporais que nos faz buscar um significado e valores para nossas vidas. É uma área ligada à experiência espiritual. Tudo que influência a inteligência passa pelo cérebro e seus prolongamentos neurais. Um tipo de organização neural permite ao homem realizar um pensamento racional, lógico. Dá a ele seu QI, ou inteligência intelectual. Outro tipo permite realizar o pensamento associativo, afetado por hábitos, reconhecedor de padrões, emotivo. É o responsável pelo QE, ou inteligência emocional. Um terceiro tipo permite o pensamento criativo, capaz de insights, formulador e revogador de regras. É o pensamento com que se formulam e se transformam os tipos anteriores de pensamento. Esse tipo lhe dá o QS, ou inteligência espiritual.

Qual a diferença entre QE e QS?
É o poder transformador. A inteligência emocional me permite julgar em que situação eu me encontro e me comportar apropriadamente dentro dos limites da situação. A inteligência espiritual me permite perguntar se quero estar nessa situação particular. Implica trabalhar com os limites da situação. Daniel Goleman, o teórico do Quociente Emocional, fala das emoções. Inteligência espiritual fala da alma. O quociente espiritual tem a ver com o que algo significa para mim, e não apenas como as coisas afetam minha emoção e como eu reajo a isso. A espiritualidade sempre esteve presente na história da humanidade.

Dana Zohar identificou dez qualidades comuns às pessoas espiritualmente inteligentes.
Segundo ela, essas pessoas:

1. Praticam e estimulam o autoconhecimento profundo
2. São levadas por valores. São idealistas
3. Têm capacidade de encarar e utilizar a adversidade
4. São holísticas
5. Celebram a diversidade
6. Têm independência
7. Perguntam sempre "por quê?"
8. Têm capacidade de colocar as coisas num contexto mais amplo
9. Têm espontaneidade
10.Têm compaixão

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Vidas Simplificadas

Como a classe média alta brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos

Por Adriana Setti.
No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem sucedidos), decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde. Tomaram uma decisão surpreendente: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos.
Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), no bairro modernista do Eixample, com direito a limpeza uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis jantares regados a vinhos.
Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento próprio e quase nunca viajavam.
Milagre? Não. O que acontece é que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais brasileiros, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio.
“Quero uma vida mais simples como a sua”, disse-me um dia a minha mãe.
Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo – da classe média européia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro).
O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.
Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente.
A classe média européia não está acostumada com a moleza.
Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão.
Caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos.
É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.
Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.
Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves, tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).
Por que estou contando isso a vocês? Porque o resultado desse experimento, quase científico feito pelos pais, é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros:
O nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.
Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?).
Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.
Alguns amigos paulistanos não se conformam com a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam eles, que têm sofás (em L, óbvio) comprados na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam para manter o padrão).
É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex.
Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha.
Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que viajam mais do que ninguém.
São mestres na arte do “savoir vivre” e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura.
Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil, e que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns – por ser menor.
Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.

domingo, 20 de maio de 2012

Sociedade de Consumo ignora Melancolia



Neste momento a sociedade reúne todo um arsenal médico-terapêutico-psicológico-farmacêutico para extirpar o mal que atormenta milhares de almas: a melancolia. O professor de literatura inglesa da Wake Forest University Erik Wilson vê na obsessão pela busca da felicidade na atual sociedade de consumo como uma desconsideração medrosa do valor da tristeza: a agitação da alma que se transforma no impulso vital de toda cultura próspera. Se o Prozac existisse desde séculos atrás, certamente não veríamos hoje muitas obras primas nos campos da literatura, pintura e ciências. Esse é o tema do recente livro de Wilson “Against Happiness: in praise of melancholy”<--break->
Na última postagem discutíamos a possibilidade da existência de um efeito político na banalização de antidepressivos: a criação de um novo conservadorismo decorrente de um efeito colateral do consumo banalizado desses medicamentos, o chamado “efeito zumbi”. Tal efeito poderia ser descrito como um mix de euforia, apatia e perda de senso crítico. Em síntese, embotamento e uma visão “suavizada” ou abrandada dos fatos da vida (sejam políticos ou pessoais).
Oportunamente li o livro “Against Happiness: in praise of melancholy” (“Contra a Felicidade: em defesa da melancolia”) do professor de literatura inglesa da Universidade Wake Forest da Carolina no Norte – EUA, Erik Wilson. O autor é bem conhecido por esse blog a partir do seu livro “Secret Cinema: gnostic vision in film” onde ele descreve as conexões entre as narrativas míticas do gnosticismo clássico e a produção cinematográfica hollywoodiana atual.
Profundo conhecedor do gnosticismo na literatura romântica dos séculos XVIII e XIX, Wilson nos oferece uma abordagem sobre a melancolia como uma força vital de qualquer cultura próspera, literatura, pintura, música, inovação, ou seja, a força que subjaz a toda ideia original. O problema é que a nossa cultura, baseada no vício da busca a todo custo da felicidade, alimenta uma desconsideração medrosa do valor da tristeza. Neste exato momento, toda a cultura midiática e indústria farmacêutica empreendem uma verdadeira repressão da melancolia, da tristeza e demais agitações da alma para expulsá-las do sistema como fossem meramente lamentos de um paciente neurótico.
Francisco de Goya, Emily Dickinson, Marcel Proust e Abraham Lincoln, todos eles eram melancólicos confirmados. Para Wilson, se em suas épocas existisse Prozac jamais a história humana contaria com suas obras-primas.
Para o autor, depressão e melancolia são duas formas de tristeza separadas por uma tênue fronteira:Wilson evita cair no romântico elogio da loucura. Ele distingue a depressão clínica (“muitas almas perdidas requerem medicação para não matarem-se ou para não causar dano aos seus entes queridos”) da melancolia. Porém, há toda uma cultura que leva um melancólico a tomar antidepressivos para que a sua carranca possa se transformar no sorridente rosto afável, agradável e conformado com a realidade.
“Uma linha muito delgada separa o que eu chamo de melancolia e o que a sociedade chama de depresssão. Para mim, o que as separa é o grau de atividade. Ambas são formas de tristeza mais ou menos crônica que conduz a um incomodo duradouro com o estado de coisas, sentimentos persistentes de que, tal como está, o mundo não está bem e é um lugar de sofrimento, estupidez e mal. Frente a esse incomodo, a depressão causa apatia, uma letargia que se aproxima da paralisia (...). Pelo contrário, a melancolia gera uma relação com a mesma ansiedade um sentimento profundo, uma turbulência no coração que desemboca no questionamento ativo do presente, um desejo perpétuo por criar novas formas de ser e de ver” (WILSON, Erik. Against Happiness, New York: Sarah Crichton Books, 2008,p. 8.).
Sabendo que o autor é um grande conhecedor das narrativas míticas do Gnosticismo clássico, não é por acaso que encontramos na sua abordagem sobre a melancolia ecos do pensamento do pensador gnóstico Mani (viveu no Irã no século III DC e sua região floresceu por séculos tornando-se a principal fonte de transmissão da tradição gnóstica). Para Mani, a melancolia era, por assim dizer, um estado alterado de consciência que propiciaria a gnose. Mani propunha uma melancolia ativa a partir de um desdém de tudo ao redor, principalmente das formas de consolação como o Cristianismo e o hedonismo.
Melancolia e “Polaridade Vital”
O livro “Contra a Felicidade” parte de dois pressupostos. Primeiro, a mídia nos passa duas mensagens contraditórias: de um lado, nos informa diariamente que o mundo está à beira do abismo (ameaças ecológicas, apocalipse climático, perigo nuclear, violência etc.) e, ao mesmo tempo, nos diz que temos que ser felizes. Wilson aponta para uma pesquisa realizada pela Pew Research Center onde os números indicam que 85% dos norte-americanos são muito felizes ou, pelo menos, felizes. Como pode haver tanta gente feliz com a enorme quantidade de problemas que aflige o planeta?
Está claro que o tipo de felicidade que está sendo incentivada é a da feliz adaptação: indivíduos suaves e embotados em sua capacidade crítica e de indignação.
O segundo pressuposto é simples e direto: quem disse que devemos ser felizes? Em qual passagem da Bíblia ou da Constituição se diz isso? A questão é que o tipo de felicidade promovida pela nossa cultura alimenta uma ignorância sobre uma “polaridade vital” entre agonia e êxtase, abatimento e efervecência. O que Wilson entende por “polaridade vital” é mais um eco do pensamento gnóstico de Mani: o cosmos é uma atribulada dança de opostos – Bem e Mal, Euforia e Tristeza, gozo e melancolia e assim por diante.
É o chamado “pensamento maniqueísta” do gnosticismo clássico: a dinâmica do cosmos é comandada pela luta entre o Bem e o Mal, “opostos” que jamais chegarão a uma síntese dialética, mas que, na verdade, constituem em duas entidades reversíveis que resultam em um único movimento. Uma entidade ao mesmo tempo tensa e complementar. Polaridades que, simultaneamente, manifestam-se como entidades reversíveis que criam a tensão vital que dá o vir-a-ser do cosmos.
Wilson nos dá dois exemplos de manifestação dessa polaridade vital: o nascimento e a morte. Ao testemunharmos o nascimento de uma criança nosso rosto sorridente é banhado por lágrimas. Ao mesmo tempo em que celebramos o estalo de uma vida nova, também é um lamento da trágica queda do recém-nascido na dor desse mundo. Somos invadidos por esses sentimentos contraditórios e, dessa maneira, nos damos conta de que os momentos mais intensos da vida são onde melancolia e gozo e euforia e tristeza juntos produzem a “valsa sobressaltada do cosmos”.

O universo congrega supreendentes antinomias. Ao apreendermos essa polaridade cósmica, sentimos o atrito desses sentimentos paradoxalmente opostos e encontramos a paz e a graça: de que nossas agitadas unidades estão em perfeita sincronia com o caótico todo.Em um funeral também sentimos uma estranha mescla de medo e esperança, tristeza e alegria. Todos estão tristes ao testemunhar mais um que está pronto para regressar à terra fria. Porém, recordamos que estamos vivos e nos alegramos por essa boa sorte. Não é à toa que os funerais negros de New Orleans são acompanhados por bandas de jazz que alegremente tocam acompanhando o velório (o “jazz funeral” cujas origens estão em práticas espirituais africanas e nas tradições marciais francesas e espanholas).


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Noblesse Oblige

Ultimamente tem-se observado um número cada vez mais crescente de homens usando os mais diversos estilos de barba. As pessoas parecem estar se rendendo a uma tendência das personalidades do cinema, da música e das artes em geral. Embora a barba continue sendo mal vista nas profissões mais ordinárias do mercado corporativo de empregos, a ponto de ser veladamente proibida por instituições como Bradesco e Itaú. Tradicionalmente associada a nobres, reis e imperadores, o cultivo da barba passou a ser estupidamente menosprezado no Brasil pela oposição ao governo do Presidente Lula da Silva já que além do próprio, vários ministros e assessores a adotavam.

A barba desenha e harmoniza certos tipos de rosto, define as linhas faciais e corrige a papada. Deve estar sempre aparada para não dar a impressão de desleixo.

Há vários estilos de barba. A barba rala de três dias exala testosterona, é considerada altamanente sexy. Já as mais densas conferem maturidade, conteúdo e densidade à personalidade, dando um ar aristocrático e uma leve displicência blasé. Noblesse Oblige.


















terça-feira, 8 de maio de 2012

Curiosidades sobre o nosso corpo



1. Se você estiver com a garganta doendo, aperte seu ouvido:
 Pressionando os nervos do ouvido, ele vai gerar um reflexo imediato nos espasmos da garganta e alivia o desconforto

2. Para ouvir melhor utilize apenas um lado da orelha:
 Se você está em um clube e não ouvir bem o que as pessoas estão dizendo, vire a cabeça e use apenas a orelha direita, uma vez que ela distingue melhor as conversações, enquanto a esquerda identifica músicas de som.

3. Para resistir à tentação de ir ao banheiro pense em sexo:
 Quando não resistir à vontade de urinar e não tiver um banheiro por perto, pense em sexo. Isso vai entreter o seu cérebro e reduzirá o estresse.

4. Provoque tosses para reduzir a dor:
 Um grupo de cientistas alemães descobriram que quando você espirra, aumenta a pressão no peito e coluna vertebral, inibindo, assim, dores na coluna.

5. Se você estiver com o nariz entupido:
 Pressione o céu da boca e o nariz. Toque o céu da boca firmemente com um dedo, segurando o nariz abaixo das sobrancelhas. Isso permitirá que as secreções possam se mover e você volta a respirar.

6. Quando você tiver com azia, durma sobre seu lado esquerdo:
 Isto cria um ângulo entre o estômago e do esófago, de modo que o ácido não pode passar para a garganta.

7. Quando um dente dói esfregue um cubo de gelo em sua mão:
 Você deve passar um pedaço de gelo na área, em um "v" que tem entre o polegar e o dedo indicador contra a palma da mão. Isto reduz em 50% a dor, pois este setor está ligado aos receptores da dor da face.

8. Quando você se queimar, pressione o ferimento com um dedo:
 Após a limpeza da área afetada, pressione com a mão sobre a queimadura, assim ela retornará a temperatura inicial e evitará bolhas. (Para pequenas queimaduras, apenas)

9. Quando você estiver bêbado:
 Repouse a mão sobre uma mesa ou superfície estável. Se você fizer isso, seu cérebro vai recuperar o sentido de equilíbrio e evitará que tudo gire ao seu redor.

10. Ao correr, respire quando o pé esquerdo pisar o chão.
 Isto irá prevenir sentimento de comichão no peito, porque se você respirar quando você coloca o pé direito, fará pressão no fígado.

11. Se sangrar o nariz, empurre com o dedo:
 Se você deitar com o sangue escorrendo poderá se sufocar, por isso é melhor pressionar o dedo sobre o lado do nariz quando você tiver sangramento.

12. Para controlar o batimento cardíaco quando você está nervoso
 Coloque o polegar na boca e assopre, isso irá ajudar seu coração parar de bater tão rápido a partir da respiração.

13. Para aliviar uma dor de cabeça quando você bebe água gelada:
 Quando você beber algo congelado, resfria o paladar e o cérebro interpreta. Então você deve colocar a língua no céu da boca para retornar à temperatura normal.

14. Previna a falta de visão quando você está na frente do PC:
 Quando você coloca seus olhos em um objeto próximo, como um computador, a vista fica cansada e não consegue enxergar direito. Por isso, feche os olhos, contraia o corpo e prenda a respiração por um momento. Então, relaxe. Remédio santo.

15. Desperte suas mãos e pés adormecidos movendo sua cabeça:
 Quando você dorme, um braço ou uma mão, gire a cabeça de um lado para o outro e sentirás a dormência passar dentro de 1 minuto. Os membros superiores adormecem pela pressão sobre o pescoço. Igualmente para pernas e pés, leva alguns segundos.

16. Uma maneira fácil de prender a respiração debaixo d'água:
 Antes de mergulhar, fazer respirações muitos rápidos e fortes para fazer o sangue ácido desaparecer, pois isso é que causa a falta de ar.

17. Memorize textos à noite:
 Tudo o que você ler antes de dormir, o mais fácil de lembrar ...

domingo, 29 de abril de 2012

O Bem Estar da Natureza

Nós nos sentimos bem em meio à natureza porque ela não nos julga


Nós, seres humanos do século XXI, estamos "desnaturalizados" e isso muitas vezes nos faz parecer extraterrestres em nosso próprio planeta. Mesmo acreditando que a cultura e a civilização tenham suprido nossa porção mais animal e instintiva, ainda precisamos manter contato com o mundo natural.

Para tratar quadros de ansiedade que nascem do excesso de trabalho e de uma longa permanência na selva de pedra, escapadas de dois ou três dias para a natureza podem ser mais eficientes do que a ingestão de medicamentos.

Ao sentir o cheiro de terra fresca, o ar limpo e o silêncio, que só é quebrado pelas pequenas criaturas ao redor, reencontramos nossa esência por tanto tempo abandonada.

Como diz Nietzsche, na cidade precisamos representar um papel porque estamos muito preocupados com o que pensam de nós. Mas, ao voltar à natureza, podemos nos dar ao luxo de sermos nós mesmos. Não precisamos nos vestir bem, falar ou atuar de maneira especial. Basta nos deixarmos levar pelo mundo natural em direção ao nosso interior, onde um manancial de tranquilidade nos aguarda.

Allan Percy
autor do livro "Nietzsche para estressados"
Ed Sextante, Rio de Janeiro RJ

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O melhor de Sampa



Você também acha que São Paulo é cidade mais babaca, reacionária, provinciana e caipira do país ? Reveja seus conceitos, nem tudo está perdido... São Paulo deu ao Brasil:  a Rita Lee, os Punks, os grafiteiros Os Gêmeos,  o Chiclete com Banana, os cartunistas Angeli, Laerte e Glauco, as pizzas, os arquitetos Marcio Kogan e Isay Weinfeld, o cozinheiro Alex Atala, a galeria do Rock, o deputado Protógenes e muitas outras coisas mais...

sábado, 21 de abril de 2012

Guerra ao Automovel


Uma fila de carros que começaria no Rio e terminaria em Porto Alegre é o espaço ocupado pelo aumento de 30% da frota de veículos na cidade nos últimos dez anos. São 424 000 carros a mais que, ao sinal verde, reduzem a esperança de vermos automóveis deslizando livremente pela pista. Você sabia que o prejuízo anual sofrido pelos cariocas com o engarrafamento é de 3,7 bilhões de reais por ano, segundo cálculos do economista do Ibmec-RJ Gilberto Braga? No livro Sorria, você está engarrafado, além de propor ideias divertidas para se distrair no trânsito do Rio - como comer biscoito Globo sem sujar o carro -, o médico carioca Mário Márcio aponta medidas adotadas por outras megacidades para melhorar a mobilidade urbana. Que sirva de inspiração para a nossa. 

1 - Pedágio urbano: algumas metrópoles europeias como Londres, Oslo e Milão cobram tarifas de carros que circulam no centro da cidade. Os recursos arrecadados são investidos na melhora do transporte público. Em Londres, onde se cobra o equivalente a 35 reais por dia dos motoristas que utilizam as ruas do centro das 7h às 18h, a medida reduziu em 30% os veículos na região. Em Cingapura, o pedágio fez o uso de ônibus crescer 15% e o engarrafamento reduzir em 40%.

2 - Desmotorização: americanos e europeus estão aprendendo a viver sem carro com soluções simples. Em Manhattan, não há estacionamentos. Em Munique, na Alemanha, novos prédios só podem ser construídos sem garagem. Medidas como essas têm estimulado investimentos em transporte público de qualidade. 

3 - Sistema de cotas: em Cingapura, há um limite de número de carros por família e cada licença pode chegar a custar 21 000 reais. Hoje, menos de 30% das famílias possuem carros. 

4 - Vias e faixas exclusivas: Curitiba e Bogotá, na Colômbia, são exemplos de cidades que priorizam o transporte público a favor da qualidade de vida. Corredores exclusivos, que começaram a ser implementados lentamente no Rio, e ônibus de alta tecnologia atraíram a população que passou a usar carro para as horas de lazer e o transporte coletivo para o dia a dia de trabalho. 

5 - Recuperação de ferrovias existentes e construção de novas: o transporte rodoviário que predomina no Brasil é um modelo urbano condenado em países ricos como Estados Unidos. Sobre pneus, a cidade se expande em baixa densidade, com crescente exigência de novas vias. Mais pistas, mais congestionamentos, mais poluição, maiores custos de infraestrutura e gestão. É fundamental investir no transporte sobre trilhos. 

6 - Construção e manutenção de ciclovias, educação no trânsito e segurança: temos, no Rio, a maior malha de ciclovias do Brasil com 235 quilômetros, mas ainda é pouco. A Zona Sul já conta até com um sistema público de aluguel de bicicletas, como nas cidades de Copenhague, na Dinamarca, e Amsterdan, na Holanda, que possuem programas governamentais que estimulam desde cedo a prática do ciclismo, o respeito às regras de circulação e a convivência pacífica nas ruas.

7 - Criação de transporte hidroviário: algumas experiências já foram feitas ligando a Barra à praça XV. Na primeira viagem de teste, os tripulantes ficaram nauseados e nunca mais se ouviu falar sobre este tipo de transporte. 

8 - Implantação de sinais inteligentes: tratam-se de semáforos que mudam o tempo entre o vermelho e o verde eletronicamente, de acordo com o fluxo momentâneo de veículos. 

9 - Criação de multa positiva: em horários e locais pré-estabelecidos, o motorista que estiver circulando com menos passageiros do que o permitido é multado - um estímulo à carona solidária e à redução do número de carros em circulação. Na Coreia do Sul, desde 1996, a capital Seul cobra o equivalente a 4,80 reais de carros que passam por duas de suas avenidas com menos de dois passageiros. Resultado: a quantidade de veículos caiu 34% e a velocidade subiu 10 Km/h.

10 - Incentivos fiscais: um alemão interessado em obter a carteira de habilitação para dirigir é obrigado a pagar uma taxa de quase 2.000 euros, o equivalente a 4.450 reais. Além disso, impostos sobre a compra de automóveis, taxas de registro e de estacionamento são propositalmente elevados.








quinta-feira, 29 de março de 2012

Pe Nunes Garcia, o Mozart Brasileiro

O padre José Maurício Nunes Garcia (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1767 – 18 de abril de 1830) foi um compositor brasileiro de música clássica que viveu a transição entre o Brasil Colônia e o Brasil Império. Apesar de conhecido como o Mozart Brasileiro, sua música recebeu mais influência do compositor austríaco Joseph Haydn. É considerado um dos maiores compositores das Américas de seu tempo.

Nunes Garcia era um religioso, mas conhecedor das ideias iluministas, compositor, regente, virtuose do órgão e do cravo, professor renomado, autor de modinhas e, por fim, mestre-de-capela da Sé da cidade (posto mais importante para um músico no Brasil Colônia).

De origem humilde, sua história está entrelaçada a fatos marcantes da história brasileira. No começo do século XIX, o músico mulato atinge estatura intelectual e herda um legado precioso de compositores, mulatos-livres que alcançaram prestígio com a música, como Francisco Gomes da Rocha, Marcos Coelho Neto, Ignácio Parreiras Neves e José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita.

Musica: Zemira (Abertura) - composta em 1803 pelo musico carioca Pe José Maurício Nunes Garcia, um dos grandes compositores eruditos do Brasil, seguidor do austríaco Joseph Haydn.

Gravação: Vox Brasiliensis. Direção: Ricardo Kanji

Requiem - Musica composta em 1816 no Rio de Janeiro para os Funerais da Rainha Maria de Portugal e Brasil.

Gravação: Coro Madrigale

Solitários Ltda



ERIC KLINENBERG
 DO "NEW YORK TIMES"

 Houve época em que a ideia de viver sozinho provocava ansiedade e visões de solidão. Hoje, porém, as pessoas mais privilegiadas do mundo usam seus recursos para comprar privacidade e espaço pessoal.
 Mais pessoas vivem sozinhas hoje que em qualquer outra época da história. Em Paris, a cidade dos amantes, mais de metade de todos os lares é composta por pessoas solteiras; em Estocolmo esse índice passa dos 60%.
 Rikka Sormunen




A decisão de viver sozinho é comum em muitas culturas, sempre que é economicamente viável. Embora os americanos se orgulhem de sua autonomia e sua cultura do individualismo, Alemanha, França e Reino Unido possuem uma parcela maior de lares compostos de uma pessoa só que os EUA; o mesmo se aplica ao Japão. Três dos países em que a proporção de pessoas que vivem sozinhas está crescendo mais rapidamente --China, Índia e Brasil-- estão entre os países cujas economias estão fazendo o mesmo.

Viver sozinho promove a liberdade, o controle pessoal e a auto-realização, todos aspectos valorizados da vida contemporânea. E viver sozinho já deixou de sugerir uma vida isolada ou pouco social. Depois de entrevistar mais de 300 pessoas que vivem sozinhas, ao longo de quase uma década de pesquisas, concluí que viver sozinho parece incentivar mais interações sociais.

Paradoxalmente, nossa espécie, que por tanto tempo foi definida pelos grupos e pela família nuclear, vem podendo aumentar a proporção de pessoas que vivem sozinhas justamente porque as sociedades globais se tornaram tão interdependentes. Mercados dinâmicos, cidades florescentes e sistemas de comunicações abertas tornam a autonomia moderna mais atraente; eles nos proporcionam a possibilidade de viver sozinhos, mas interagir com outros quando e como quisermos.

Na realidade, viver sozinho pode facilitar o convívio social, porque, na ausência de obrigações familiares, as pessoas que vivem sozinhas muitas vezes dispõem de mais tempo para participar de atividades sociais.

As pessoas solteiras têm probabilidade maior que as casadas de passar tempo com amigos e vizinhos, frequentar restaurantes e assistir a palestras e aulas de arte. A socióloga Erin Cornwell, da Universidade Cornell, de Ithaca, Nova York, analisou resultados da Pesquisa Social Geral (baseada em uma amostra nacionalmente representativa da população dos EUA) de 2000 a 2008 e constatou que solteiros de 35 anos ou mais têm mais chances do que pessoas dessa faixa etária que vivem com marido, mulher ou parceiro romântico de passar uma noite de convívio social com vizinhos ou amigos. Em 2008, o marido dela, Benjamin Cornwell (também sociólogo da Universidade Cornell), foi o autor principal de um artigo publicado na "American Sociological Review", mostrando que idosos solteiros têm o mesmo número de amigos e de discussões que seus pares casados e que têm mais probabilidade de socializar com outras pessoas.

As pesquisas também indicam que os pais casados têm mais chances de ficar em casa que as pessoas solteiras. Os moradores de grandes residências suburbanas muitas vezes se separam em quartos individuais para ficarem a sós. A imagem de uma família moderna reunida na sala, cada pessoa com seu smartphone, computador, videogame ou programa de TV próprio, já virou clichê.

Estar sozinho em casa não é sentido como viver numa cela solitária. A internet abre às pessoas um mundo de outras pessoas, informações e ideias e não parece distanciar as pessoas de conexões e amizades reais.

Hoje, nos Estados Unidos, cinco milhões de pessoas de 18 a 34 anos de idade vivem sozinhas, número dez vezes maior que em 1950. Porém, o maior contingente que vive sozinho é composto de pessoas na meia-idade: vivem sozinhas 15 milhões de pessoas que têm entre 35 e 64 anos. As que decidiram viver sozinhas disseram em entrevistas que optaram por isso porque concluíram que não há nada pior que viver com a pessoa errada.
  
Bill Marsh e Amanda Cox/The New York Times

Nas entrevistas que fiz, pessoas mais velhas que vivem sós expressaram uma preferência clara pela vida sozinha, que lhes permite conservar sua independência e integridade, e uma aversão clara por ir morar com amigos, familiares ou em um lar para idosos.

De acordo com pesquisas da socióloga Deborah Carr, da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, 18 meses após a morte de um cônjuge apenas um em cada quatro homens idosos e uma em cada seis mulheres idosas se disseram interessados em se casar outra vez; um em cada três homens e uma em cada sete mulheres gostariam de voltar a namorar algum dia, e apenas um em cada quatro homens e uma em 11 mulheres gostariam de namorar imediatamente.

A maioria dos viúvos e divorciados mais velhos, homens ou mulheres, vive sozinha. De acordo com Kathleen McGarry, economista na Universidade da Califórnia em Los Angeles, "quando eles têm mais renda e podem optar como viver, optam por viver sozinhos. Eles compram sua independência."

Alguns idosos doentes de fato ficam perigosamente isolados, como constatei quando fiz pesquisas para meu livro sobre as centenas de pessoas que morreram sozinhas na onda de calor de 1995 em Chicago. Mas muitas pessoas acima dos 65 anos conservam sua independência por muito mais tempo do que faziam as gerações anteriores.

É verdade que as dificuldades na economia vêm forçando mais adultos jovens a viver com seus pais por não encontrarem bons empregos, mas nos EUA a parcela de pessoas de 20 anos a 29 anos que vive sozinhas caiu de 11,97%, em 2007, para 10,94%, em 2010. Ou seja, em geral, viver sozinho tornou-se mais comum em termos absolutos e proporcionais, no mundo.

Erick Klinenberg é professor de sociologia e autor de "Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone"