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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O Veneno esta na Mesa


(Brasil, 2011, 50 min. - Direção: Silvio Tendler)
Imperdível! Filme de um dos maiores documentaristas do Brasil, o premiadíssimo Silvio Tendler, que mostra o cenário assustador que se encontra o país em relação ao uso indiscriminado de agrotóxicos.
Você sabia que o Brasil é o país que mais pulveriza agrotóxicos nos alimentos? Que é o recordista em consumo desses químicos?Que um brasileiro consome em média 5,2 litros de agrotóxicos anuais?Que os agrotóxicos provocam uma série de problemas de saúde, desde lapso de memória em crianças até má formação dos fetos?Que apesar do Governo tentar proibir uso de muitos químicos, a justiça concede liminares a favor das grandes corporações químicas?Que para conseguir crédito junto aos bancos o pequeno trabalhador é obrigado a usar transgênicos e pesticidas? Que as doenças provocadas por esses químicos nos trabalhadores do campo consomem 1,8% do PIB em tratamentos médicos?
Se não sabia, talvez seja a hora de saber disso e muitas outras coisas mais.

domingo, 21 de agosto de 2011

Smukke Mennesker


Diretor: Mikkel Munch-Fals (Dinamarca)
A vida de quatro pessoas que anseiam algo melhor. Ingeborg que se sente pouco atraente, o jovem Jonas que de tão atraente pode, literalmente, vender o que tem. Anna, uma bela mulher, com uma sequela física, e Anders, um homem gentil com um distúrbio psicológico. Quatro pessoas desejando o amor, cada qual ao seu estilo, esperando por um amanhã melhor.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Melancolia



Melancólico apocalipse

O diretor Lars von Trier deixa de lado suas críticas ao estilo de vida americano e mergulha na alma humana em "Melancolia"

Depois de tratar de assuntos polêmicos na inacabada trilogia ironicamente intitulada “EUA, a Terra das Oportunidades”, que incluiu os filmes “Dogville” e “Manderlay”, o cineasta dinamarquês Lars von Trier resolveu falar sobre a complexidade da natureza humana em seu novo longa-metragem “Melancolia”, com estreia prevista no Brasil para a sexta-feira 5.

Aplaudido de pé e agraciado com a Palma de Ouro de melhor atriz para Kirsten Dunst no último Festival de Cinema de Cannes, o filme é dividido em dois momentos e foca a relação das irmãs Justine (Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg) que passam a refletir sobre os rumos de suas vidas ao saberem que um estranho planeta pode se chocar contra a Terra a qualquer momento.

Enquanto o fim do mundo se aproxima, as personagens trocam de papel e Justine, a confusa, vai ganhando um ar de serenidade, enquanto Claire, a organizada, perde a cabeça aos poucos. O mesmo acontece com os seus respectivos maridos, Michael (Alexander Skarsgard) e John (Kiefer Sutherland).

“Melancolia” não é tão pesado quanto o trabalho anterior de Trier, “Anticristo”, mas não deixa de causar desconforto com suas situações constrangedoras em família – o discurso em pleno casamento feito pela pessimista tia Gaby (Charlotte Rampling) no qual ela diz que “a união do casal não daria certo” é um bom exemplo.

Outra mudança de estilo promovida pelo diretor foi ter deixado de lado a escuridão monocromática de seus trabalhos recentes. Optou pelo contrário. Usando como locação uma espécie de château com um vasto gramado onde se passa o casamento de Justine e Michael, o diretor contrasta o verde do campo aberto com a iluminação controlada de um estúdio de filmagens, conferindo densidade às cores em cena.Von Trier chegou a declarar que Justine, que sofre de depressão, seria seu alter ego. Polêmico, não bastou ser expulso de Cannes por comentários a favor do nazismo: ele agora anda prometendo que seu próximo filme será do gênero pornográfico para “se cercar de gente descomplicada”.

O cineasta Lars von Trier, diretor do filme "Melancolia", com estréia no Brasil na sexta -feira 5, deu a seguente esntrevista à jornalista Elaine Guerini da revista Isto É.

Elaine Guerini - Em que se inspirou para filmar o fim do mundo em "Melancolia" ?
Lars von Trier - A idéia inicial era escrever um filme para Penélope Cruz, que me procurou dizendo que queria trabalhar comigo. O primeiro tema que passou pela cabeça foi a depressão. Aí uma coisa puxou outra. Pesquisando sobre depressão, descobri que Saturno é o planeta da melancolia e depois cai em sites sobre colisões cósmicas.

Elaine Guerini - E porque Penélope Cruz não interpretou a personagem, que acabou sendo feita por Kirsten Dunst?
Lars von Trier - Porque ela preferiu atuar na franquia "Piratas do Caribe", em que ganharia muito mais dinheiro. Faz sentido, não ?

Elaine Guerini - Ficou ressentido com ela ?
Lars von Trier - Não. Entendo que ela queira atuar numa superprodução de Hollywood, mas não sei se terá outra chance comigo. Quando abandonou o fime disse que gostaria de tentar de novo. Tive de ser sincero e falei que nunca mais escreveria um papel exclusivo para ela.

Elaine Guerini - É verdade que o sr. está escrevendo um filme pornô, para rodar com astros dinamarqueses do gênero ?
Lars von Trier - Sim. Estou trabalhando na história de uma mulher que descobre a sua sexualidade. O título provisório é "A Ninfomaníaca". Depois de tudo que aconteceu em Cannes será melhor mesmo eu me cercar de gente descomplicada.

Elaine Guerini - Não é irônico o fato de "Melancolia" ter agradado a crítica ? Dessa vez foi o sr. quem desagradou ?
Lars von Trier - Sabe qual é o problema ? Diante de uma platéia, sempre me sinto na obrigação de entretê-la. Como tudo ia muito bem na coletiva, pelo fato de o filme ter sido bem recebido, comecei a falar besteira. A verdade é que todo mundo espera que eu fale algo provocativo.

Elaine Guerini - Os seus filmes chocantes já não bastam mais ?
Lars von Trier - Talvez não. A crise dos 50 anos está realmente mexendo comigo. Mas há um lado bom. Álcool, por exemplo. Se me perguntassem o que me deixava mais feliz há um ano e meio, eu responderia: uma garrafa de uísque escocês. Mas depois da filmagem de "Melancolia" parei de beber.

Elaine Guerini - O que deixa o sr, feliz ?
Lars von Trier - Sentir as páginas de um livro de Marcel Proust. Estou lendo o quinto livro da obra "Em Busca do Tempo Perdido" e estou fascinado pela forma como ele descreve as coisas.

Elaine Guerini - Gostaria de escrever livros ?
Lars von Trier - Ainda gosto de filmar. O problema é que o cinema anda preso demais ao roteiro. O que acho inspirador nos romances de Proust é o jeito como ele lentamente leva o leitor até o topo da montanha, e logo depois nos conduz ao vale, que nunca é tão interessante assim. Ficar entediado faz parte da existência.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Como Esquecer


Baseado no livro de Myriam Campello ("Como Esquecer - Anotações quase inglesas"), o longa conta a história de Julia (Ana Paula Arósio), uma professora de Literatura Inglesa, abandonada sem muitas explicações por sua companheira após um relacionamento de 10 anos.

Diante do tema árido e, de carona, também controverso por tratar-se de um amor homossexual, a possível polêmica recebe mais tempero com a presença de Hugo (Murilo Rosa), um viúvo gay, e Lisa (Nathalia Lage), uma jovem diante de duas perdas, sendo uma delas motivo até de debate político e religioso.

Como os três foram morar juntos, formaram uma espécie de "república dos inconsoláveis" e vão lidar de várias maneiras com as dificuldades afetivas. O problema é que, de mal com a vida, Júlia destila seu mau humor de maneira causticante, partindo de um desejo de vingança até a necessidade de sentir dor física para "encontrar (?!) a paz". E essa constante acidez do personagem, independente do sarcasmo com os Florais de Bach, o Feng Shui, entre outras "vítimas", pode ser indigesta para muito espectador.

Repleto de divagações e mergulhos mais cerebrais, com direito a citações de Virginia Woolf e da poetisa Emily Brontë. A narrativa verborrágica é atenuada pela interpretação convincente de Rosa e o humor do seu personagem. Destaque também para as bonitas cenas de nudez, em sua maioria, de bom gosto e sensuais.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Dois Filmes do Festival de 2009

Eu não compareci a nenhum filme do Festival do Rio de 2009, mas ontem tive a oportunidade de assistir a dois filmes nacionais lançados na ocasião.
Histórias de Amor duram apenas 90 minutos

Os Famosos e os Duendes da Morte

terça-feira, 31 de maio de 2011

Clube da Luta - Você não é especial !


Você sentou novamente em frente ao computador, abriu o navegador e voltou a desperdiçar seu tempo.

Enquanto continua lendo o texto de um cara que não sabe absolutamente nada sobre o que escreve, não vai adicionar nada à sua cultura, ou mesmo tem alguma influência no assunto, o mundo lá fora pressiona algum outro idiota a fazer o mesmo que você.

Faz alguma ideia da importância disso? É, imaginei que não, mesmo.

A sua vida é este sonho onde a lucidez é apenas uma ilusão com a qual você alucina nos raros momentos onde para e pensa em alguma coisa que não seja um monte de porcarias aleatórias. Olhos abertos, olhos fechados, dormindo ou acordado, qual a diferença? Você não tem autonomia alguma para decidir nada. Nem mesmo o que, em quem ou como quer pensar.

"Ei, você me acha especial?"
Enquanto você continua lendo, numa tentativa de encontrar respostas, seus problemas permanecem lá, do mesmo jeito. Sua vida permanece cheia de crises, pendências e uma completa ausência de sentido. “Vazio” é a palavra que descreve tudo. O melhor que consegue fazer para mudar é contratar uma diarista, comprar um sofá e uns tapetes para decorar o apartamento, arranjar uma namorada e levá-la para passear no shopping.

Você não tem coragem sequer de sentir dor. Fica ansiando pela felicidade como uma criança assistindo ao Rei Leão, achando que um dia vai ser rico e substituir seu chefe. Abre o seu navegador no PapodeHomem, esperando que alguém lhe diga como, o que ou quem você deve ser, imaginando a vida de pessoas que pensa serem diferentes de alguma maneira especial. Seres fora do planeta Terra. Exemplos a seguir. É assim que um homem realmente deve ser?

Por algum motivo, você é incapaz de admitir que é um nada, que a sua presença na Terra significa tanto quanto um átomo de um grão de areia na praia. Não tem coragem de imaginar seu próprio caixão com o cadáver do que um dia pensaram ser você, lá dentro. A ideia de ter uma vida finita o amedronta tanto que isto o torna uma vaca dócil no abatedouro.

“Você precisa saber que vai morrer. Não ter medo. Saber que vai morrer.”

Precisa saber que o seu último dia chegará e pode ser daqui a algumas horas. Precisa saber responder, sem hesitar, o que você quer fazer com o pouco tempo que possui. Pintar, bordar, plantar uma árvore, ser uma estrela do rock, não importa. Você precisa saber.

"Presta atenção, o telefone está fora da tomada, aqui quem fala e ouve sou eu mesmo."
Se você espera que eu abra as portas da esperança, traga alguma receita de felicidade ou um passaporte para a ilha da fantasia, sinto muito. Não é sobre felicidade que vim falar. Não vou ensinar como ser mais forte, mais bonito, mais inteligente, ganhar mais dinheiro ou conquistar mais mulheres. Não, nada disso. Tudo o que sei é sobre perda, sofrimento, vício, desilusão, batalhas e, principalmente, derrotas.

Eu digo: pare de lamentar suas derrotas. Pare de sofrer inutilmente. Aprenda a gostar disso. Perceba o sabor do sangue na sua boca quando o soco chega. A falta de ar quando o impacto atinge o seu estômago. A poeira no rosto quando você cai de cara e não sobra mais nada. Note o brilhantismo deste momento. A oportunidade única que chega agora. Ria diante da dor, aproveite para sair do torpor e lembrar, alguma vez, o que é realmente se sentir vivo.

Você nunca será feliz. Nunca terá a vida que deseja. Nunca conseguirá gerar as condições perfeitas para atingir a realização definitiva. Se esperar por isso, a morte vai chegar e não vão subir os créditos, ninguém vai aplaudir e nenhuma luz vai acender. Nada de autógrafos e sucesso. Apenas a cova fria e escura. Parece assutador? Você não sabe onde estive.

Se eu perguntasse quem é você, provavelmente viria cheio de frases prontas. Um monte de besteiras. Músicas que gosta, filmes, lugar onde trabalha, suas mazelas nos relacionamentos, a cidade onde cresceu e as expectativas salariais dos próximos anos. Você não é nada disso.

Se me perguntassem, diria: eu sou o punho de Jack acertando a sua cara. Eu sou o câncer no coração podre de Jack. A profunda amargura que sobrou das decepções de Jack. Sou o sangue, a carne e a mente doentia de Jack. Sou tudo o que você quis ser e não teve coragem.

Eu sou Tyler Durden

domingo, 15 de maio de 2011

Não me abandone jamais



Nome: Never Let Me Go
Gênero: Drama, Romance
Diretor: Mark Romanek
Duração: 103 minutos
Ano de Lançamento: 2010

O romance “Não Me Abandone Jamais” foi escrito por Kasuo Ishiguro - um escritor nipobritânico - e publicado em 2005. Pouco tempo depois já era aclamado pela Revista Time como o melhor livro da década. Não demoraria até que a história fosse parar nos cinemas.
Tudo se inicia numa hipotética 1952, quando a cura para as principais doenças da humanidade teria sido descoberta, através da doação de órgãos, advindas de clones humanos. Kathy, Tommy e Ruth são três destes clones; crianças criadas numa escola isolada, cuja principal regra é a superproteção dos alunos, para que eles não contraiam nenhuma doença e sejam seres capazes de doar órgãos saudáveis.
O destino daquelas crianças é um só (a doação) e é sabido que após algumas cirurgias para a retirada de seus órgãos, realizadas no início da fase adulta, elas morreriam. Mas os três amigos acreditam que exista uma chance de adiar as suas doações – e consequentes mortes – caso eles consigam provar que existe amor verdadeiro entre dois deles.
A adaptação para as telonas se deveu pelas mãos de Alex Garland, um especialista em roteiros futuristas e realidades alternativas, autor de das histórias de “Sunshine – Alerta Solar”, “Extermínio” (ambos dirigidos por Danny Boyle) e já contratado para escrever o roteiro do badalado “Halo”, previsto para 2012. Apesar de complexo, o roteiro trás situações críveis, como se aquela realidade fosse mesmo possível – e nos faz acreditar que realmente o são, de forma quase documental.
A escolha por não se construir um futuro, mas sim uma realidade alternativa, fez com que a direção de arte só tivesse o trabalho de reconstituir fidedignamente épocas já existentes e não se preocupar com objetos de ficção científica, nem muito menos que fosse preciso contratar especialistas em efeitos visuais, algo que também possibilitou o financiamento barato do filme. Na tela, o efeito de tal escolha surte ainda maior, pois a situação é perfeitamente plausível, afinal, a criação de clones humanos para fins donatários já é assunto discutido atualmente pelos cientistas.
Seguro, o diretor Mark Romanek (Retratos de Uma Obsessão) não deixa pontas soltas e mostra que sabe dirigir um grande elenco, arrancando atuações inspiradas de Carey Mulligan (Educação) e Andrew Garfield (A Rede Social), além de ainda poder contar com uma pequena, mas marcante participação de Sally Hawkins (Simplesmente Feliz).


sábado, 23 de abril de 2011

Cineasta : Susanne Bier

Susanne Bier nasceu em Copenhague (Dinamarca) de pais judeus. Estudou arte e arquitetura na Universidade de Jerusalém antes de sua aceitação para o National Film School da Dinamarca, de onde se graduou em 1987. Passou a dirigir vários filmes na Dinamarca e na Suécia, seu primeiro sucesso comercial foi a comédia romântica The One and Only, em 1999. Mais tarde, filmes como Irmãos (2004), Depois do Casamento (2006) e Em um Mundo Melhor (2010) que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Things We Lost in the Fire (2007) é seu único filme americano até à data, no entanto, recentemente anunciou que irá dirigir a adaptação americana da "Rapt". Em 2011, ela ganhou seu primeiro Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.
Brothers (2004)
Michael (Ulrich Thomsen) é um militar dinamarquês exemplar, casado com Sarah (Connie Nielsen) e pai de duas filhas. Ele é enviado com sua tropa para uma missão da ONU no Afeganistão. Seu irmão Jannik (Nikolaj Lie Kaas), ao contrário, é a ovelha negra da família, recém-saído da prisão e com um histórico de irresponsabilidades. Logo ao chegar na zona de conflito o helicóptero de Michael é abatido e ele é dado como morto. Jannik, surpreendentemente, passa então a confortar a família do irmão, o que faz com que sua relação com Sarah ganhe um novo sentido. Mas Michael não morreu e quando ele retorna as coisas estão diferentes.After the Wedding (2006)
Jacob Petersen (Mads Mikkelsen) esforça-se para conseguir manter um orfanato numa das regiões mais pobres da Índia. Quando há o risco de a instituição fechar, ele recebe um aviso para voltar à Dinamarca, pois um rico empresário quer fazer uma doação, com a qual ele poderá resolver seu problema. Enquanto isso, em Copenhagen, Jørgen (Rolf Lassgård) vive uma vida quase idílica com sua mulher Helene (Sidse Babett Knudsen) e filhos. Perspicaz homem de negócios, ele também é um pai devotado, porém indulgente a ponto de cometer indelicadezas, quando o assunto não é sua família. Ele falta ao encontro para o qual Jacob havia viajado, só para discutir detalhes do casamento de sua filha. Essa seqüência de eventos mudará a vida de todos eles para sempre.


In a Better World (2010)
Anton (Mikael Persbrandt) é um médico que trabalha em um campo de refugiados em um lugar qualquer da África. Na Dinamarca, seu país natal, estão sua mulher Marianne (Trine Dyrholm) e seus dois filhos, Elias (Markus Rygaard) e Morten (Toke Lars Bjarke). Paralelamente, acompanhamos a história do garoto Christian (William Jøhnk Nielsen) que emigra para a Dinamarca, ao lado de seu pai Claus (Ulrich Thomsem) logo após a morte da mãe. Dois mundos distintos que irão se cruzar.

DMT - A Molécula do Espírito

"A Molécula do Espírito" tece uma visão sobre as pesquisas pioneiras do Dr. Rick Strassman com DMT (dimetiltriptamina) com uma abordagem multifacetada a este intrigante alucinógeno encontrado no cérebro humano e em milhares de plantas. Utilizando entrevistas com uma variedade de especialistas para explicar seus pensamentos e experiências com DMT em suas respectivas áreas, e com os relatos dos voluntários da pesquisa de Strassman, o documentário traz à luz os incríveis efeitos deste composto, e teorias de longo alcance sobre o seu papel na consciência humana.

Vários temas abordados incluem possíveis papéis para o DMT endógeno; seu papel nas experiências de quase-morte e de nascimento, nas experiências de abdução alienígena; e semelhanças sinistras com textos proféticos da bíblia que descrevem experiências similares à do DMT. Os especialistas colaboradores oferecem um conjunto abrangente de informações, opiniões e especulações sobre o uso de DMT em populações indígenas, a história e o futuro das pesquisas psicodélicas, e as recentes pesquisas com DMT. Tudo isso, para ajudar a entender a natureza da experiência com DMT, e seu papel na sociedade humana e na evolução.

A sutil combinação de ciência, espiritualidade e filosofia na abordagem do filme lança luz sobre uma série de ideias que podem alterar consideravelmente a forma de o homem entender o universo e se relacionar com ele.

Documentário
Diretor: Mitch Schultz
Duração: 75 minutos
Ano de Lançamento: 2010
País de Origem: USA
Idioma do Áudio: Inglês




terça-feira, 5 de abril de 2011

Greenberg

Típico filme independente norteamericano, com questões existenciais e uma estrela mainstream. A estrela do filme é Ben Stiller, que interpreta Roger Greenberg, um novaiorquino típico da chamada 'geração X', sozinho, atormentado, sem emprego e sem projeto de vida. Prestes a completar quarenta e um anos, depois de passar alguns meses internado numa clínica psiquiátrica por conta de severa depressão, ele vai passar um tempo na casa de seu irmão mais velho em Los Angeles. Phillip, o irmão, é casado, tem filhos, uma vida estável, e não perde a chance de deixar claro seu julgamento de Roger como fracassado. Nessa volta à sua cidade natal, Roger reencontra alguns amigos de juventude, todos com suas vidas encaminhadas, filhos e família. Com todos esses contrastes e embates, diversas questões concernentes à cada vez maior parcela das pessoas não ajustadas e não inseridas à forma-de-viver-padrão considerada funcional e adulta. Pessoas que não encontram seu lugar no mundo, que vivem em melancólico estado de estranhamento, esmagadas pela impessoalidade e impotentes para entrar na roleta fria do mercado produtivo que impulsiona a vida ordinária. Concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Belim.

Desencanto e Constrangimento

Roteiro e Direção: Noah Baumbach

Resenha: linguadefel.blogpot.com

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Gran Torino

Clint Eastwood põe o dedo em quatro feridas

São muitos os temas de “Gran Torino”, o mais recente filme de Clint Eastwood. O primeiro, e mais evidente, como observaram alguns críticos, é o retrato da América pintado nas telas. Walt Kowalski, o personagem de Clint, ex-operário da Ford, residente numa área deteriorada de Detroit, ocupada por imigrantes e gangues, evoca um tempo, superado, de glórias – a da pujança da indústria automobilística e do próprio país.

O magnífico modelo Gran Torino 1972, que Kowalski cuida com zelo, como se fosse um filho, é a imagem explícita dessa América que não existe mais. Para não deixar dúvidas do que quer dizer, Clint ainda apresenta o filho de Kowalski como um bem-sucedido vendedor de carros… japoneses.

Outro tema importante em “Gran Torino” é o da conversão do próprio Clint Eastwood. Como também já apontaram outros críticos, o filme é uma espécie de revisão da fase truculenta do ator e cineasta, cujo ápice foram os filmes da série “Dirty Harry”, em que protagonizou um justiceiro implacável. Kowalski herdou de Harry a truculência, o jeitão racista e grosseiro, mas agora está em busca de redenção, paz e descanso.

Um terceiro tema, já tratado em “Cartas de Iwo Jima” (2006), é o da difícil relação da cultura americana com o mundo estrangeiro. Tanto no filme construído a partir das cartas de soldados japoneses, quanto neste, cujo núcleo central é formado por um grupo de imigrantes orientais, Clint parece se esforçar em amainar o provincianismo dominante na América.

Por fim, um quarto tema de “Gran Torino”, que me interessou especialmente, é o da velhice. Clint já afirmou que este é o último filme em que participará como ator – o que dá ao trabalho um tom de comovente despedida.

Alquebrado, mas sem perder a lucidez, o personagem Kowalski olha com desdém para os jovens de sua família, e enxerga neles apenas pessoas sem modos e sem afeto, além de gananciosas, de olho em seus poucos bens. É uma visão amarga, por um lado, mas compensada pela capacidade que o velho mostrará ao longo da história de abrir o seu coração para o que não conhece. Mesmo que soe piegas, é um grande lição do filme. Impossível não se emocionar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Brokeback Mountain


Por mais que aceitemos os gays, eles sempre foram uma fonte de Angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade "clara".
Já o gay sério inquieta. O gay banqueiro, o gay médico, o gay de terno, o gay forte, o gay caubói são muito próximos de nós, a diferença fica mínima.
Por isso, eu não queria ver o tal filme dos caubóis.
Como? Caubói de mãos dadas, dando beijos romanticos, com tristes rostos diante do impossível? Não. Eu, não. Mas, aí, por falta de programa, "distraidamente"... fui ver o filme.
O filme não me pedia aprovação alguma para o homossexualismo, o filme não demandava minha solidariedade. Não.Trata-se de um filme sobre o imperio profundo do desejo e não uma narração simpática de um amor "desviante".
O filme se impõe assustadoramente! Os caubóis jovens e fortes se amam com um tesão incontido e são tomados por uma paixão que poucas vezes vi num filme, hétero ou não. Foi preciso um chinês culto para fazer isso. Americano não aguentava. Nem europeu, que ia ficar filosofando.
"Brokeback" é imperioso, realista, sem frescuras. Nao há no filme nada de gay, no sentido alegre, ou paródico ou humorístico do termo. Ninguém está ali para curtir uma boa perversão.
Não. Trata-se de um filme de violento e poderoso amor. É dos mais emocionantes relatos de uma profunda entrega entre dois seres, homos ou héteros. Acaba em tragédia, claro, mas não são "vitimas da sociedade". Não. Viveram acima de nos todos porq viveram um amor corajoso e profundo.
Há qualquer coisa de épico na historia, muito mais que romantica. Há um heroismo épico, grego, como entre Aquiles e Pátroclo da "Iliada",algo desse nível.
O filme não é importante pela forma, linguagem ou coisa assim. Não. Ele é muito bom por ser uma reflexão sobre a fome q nos move para os outros, sobre a pulsação pura de uma animalidade dominante, que há muito tempo não vemos no cinema e na literatura, nesses tempos de sexo de mercado e de amorezinhos narcisistas.
Merece os Oscars que ganhou.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Submarino - Thomas Vinterberg

BERLIM: Lars Von Trier ficou com a fama, mas o primeiro diretor a filmar segundo as regras naturalísticas do Dogma 95 foi Thomas Vinterberg, co-criador do movimento. Infelizmente, seus filmes posteriores não mantiveram o alto nível de “Festa de Família”, sua estreia em 1998. Até este “Submarino”, que foi recebido por parte da crítica como uma volta à forma.

O drama sombrio, baseado num romance aclamado de Jonas T. Bengtsson, filmado em 16 milímetros e com uma coloração azulada de fundo do mar, acompanha dois irmãos que sucumbiram à dissolução familiar e ao ambiente de miséria em que foram criados.

O filme começa com o choro de um bebê, assistido por duas crianças, enquanto a mãe procura uma garrafa de vermute. O trauma da morte do irmão menor, logo no início, marca a trajetória dos protagonistas (De novo, após Anticristo a morte da crianca volta a assombrar o cinema dinamarques e seus monges do Dogma.). Negligenciados por uma mãe alcoólatra e abusiva, tornam-se adultos problemáticos, com poucas chances de redenção. E é apropriadamente a morte da mãe que acaba por reuni-los após 20 anos de separação.

O mais velho, Nick, é agora um alcoólatra amargurado, violento, lacônico, de temperamento difícil, todo coberto de tatuagens e recém-libertado da prisão, que vive num abrigo e se relaciona com uma sem-teto que perdeu a guarda dos filhos. Os primeiros 45 minutos de projeção são dedicados a ele.

Mas logo conhecemos o mais novo, um jovem drogado de olhar vazio como um zumbi, que aparentemente nem sequer tem um nome. Ele é sempre referido como “o irmão de Nick” ou “o pai de Martin”. Tornou-se um pai solteiro após um acidente de carro, três anos atrás, matar sua esposa, e agora precisa equilibrar o vício com a responsabilidade de cuidar de uma criança pequena.

O roteiro é inteligente em materializar pontes visuais entre as histórias paralelas e ao aliviar ocasionalmente o tom miserável, que poderia se tornar sufocante, com intersecções cômicas – mesmo que tragicômicas.

Outro detalhe significativo é que a passagem entre a vida desgraçada de um irmão para a outra não é sincronizada. Os segmentos não se interligam cronologicamente. A opção estrutural é mais um modo de reforçar a falta de conexões entre os dois em suas vidas adultas. Cada qual tem seu inferno particular para arder durante o resto de sua existência.

Apenas por um breve momento o filme consegue aproximá-los, numa cena significativa, que enseja a possibilidade de futuro melhor para o pequeno Martin. Vinterberg quis, ao fim de todo o sofrimento, mostrar que existe esperança.

Em entrevista no Festival de Berlim, o cineasta admite que é seu filme mais "escandinavo" - talvez por isso, Submarino tenha recebido o prêmio principal da Academia Escandinava de Cinema. "Existem elementos, se é que se pode dizer, de Shakespeare em Festa de Família. O rei morto, rei está nu, a família dividida de Rei Lear, a indagação existencial de Hamlet. Tudo isso é verdade, mesmo que pareça muito pretensioso, mas sou filho de um intelectual e ele me criou na admiração dos clássicos. Bengstsson e Submarino são mais embasados na realidade da Dinamarca, da Escandinávia. Uma história de queda e redenção, de ascese, como aquelas que (Carl Theodor) Dreyer gostava de contar."

Ele reconhece que Submarino deve muito aos atores e não poupa elogios a Jakob Cedergren e Peter Plaugborg. "Eles foram fundo na investigação de personagens que são difíceis. A ideia aqui é ir fundo na vulnerabilidade e no sofrimento. É como se fosse necessário perder a cascas para renascer."

O diretor reflete agora sobre o que parece óbvio. "O Dogma morreu, é página virada, mas para nós todos foi muito importante. Surgimos como um grupo, uma geração cheia de ideias, querendo marcar o cinema. Se tentássemos fazê-lo individualmente, talvez não tivéssemos conseguido. Cada um seguiu seu caminho, está tendo de assumir seus limites. Mas ainda nos relacionamos. Lars, Suzanne Bier, eu. O problema é a novíssima geração do cinema dinamarquês, os órfãos do Dogma. Acho que eles enfrentam a pior crise da história do cinema no país."













sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Millennium


OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES
Harriet Vanger desapareceu 36 anos atrás sem deixar pistas na ilha de Hedeby, um local que é quase propriedade exclusiva da poderosa família Vanger. Apesar da longa investigação policial a jovem de 16 anos nunca foi encontrada. Mesmo depois de tanto tempo seu tio decide continuar as buscas, contratando o jornalista investigativo da revista Millennium, Mikael Blomkvist, que não está em um bom momento de sua vida, enfrenta um processo por calúnia e difamação. Mas, quando o jornalista se junta a Lisbeth Salander, uma investigadora particular nada usual, incontrolável e anti social, a investigação avança muito além do que todos poderiam imaginar.


A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO
Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist), publisher da revista Millennium, fez carreira expondo a corrupção das autoridades da suecas. Quando uma jovem jornalista se aproxima dele com uma detalhada apuração em um caso de tráfico sexual, Blomkvist imediatamente mergulha na investigação.


A RAINHA DO CASTELO DE AR
Enquanto Lisbeth Salander se recupera no hospital, uma unidade secreta dentro da polícia está tentando desesperadamente apagar qualquer coisa que possa identificá-los e tentando colocar Lisbeth de volta ao hospital psiquiátrico, acusada de matar o seu pai.

domingo, 11 de julho de 2010

Adeus Falkenberg




Título: Farväl Falkenberg (Adeus Falkenberg)
Gênero: Drama Existencial
Diretor: Jesper Ganslandt
Ano de Lançamento: 2006
País de Origem: Suécia

O cotidiano de jovens moradores da remota Falkenberg, cidade pouco desenvolvida da Suécia. Os atores inspiram-se em suas próprias vidas (usando inclusive seus nomes reais) para falar da falta de perspectivas e anseios da vida adulta.
O orçamento mínimo e a estética refinada fizeram o filme se destacar em festivais de cinema indie pelo mundo.

[...]Mas não havia bom humor capaz de resistir a grande britadeira no coração que é o sueco “Farväl Falkenberg”, début independente do diretor publicitário Jesper Ganslandt, sobre a resistência de um grupo de amigos para entrar na vida adulta após o fim de seus anos escolares, filme biográfico no qual os personagens preservam os nomes do atores (entre eles, o próprio diretor). “Este é o último verão. Invernos nunca mais.” Na realidade, o que acontece em “Falkenberg” estabelecerá o inverno para sempre. Sangrando de compaixão pelos slackers socialmente inúteis, Ganslandt lembra um Bergman jovem, por vias de David Gordon Green, ao dirigir um filme mais triste do que enterro de criança, delicadíssimo na sua prontidão digital e enquadramentos precipitados. Gradualmente sendo marginalizados da sociedade, os personagens precisam escolher entre pertencer ou o limbo. A trilha-sonora surpreende com lacunas melódicas inesperadas que fazem o espectador sentir que foi lançado num abismo. Nó na garganta para um sol que parece estar se constantemente se pondo, ficamos com o desabafo, que escapa entre as gargalhadas bêbadas de John, descobrindo que terá que lutar pelo resto da vida para ignorar a melancolia: “Tudo isto é tão triste. Tão triste.”[...]
Trecho retirado do site Zeta Filmes.

terça-feira, 16 de março de 2010

Alam Moore


1981. Ronald Reagan torna-se presidente norte-americano por dois mandatos consecutivos, consolidando um retorno às políticas do capitalismo tradicional pelo neo-liberalismo e acabando com as disparidades econômicas entre os EUA e a URSS pela queda do Muro de Berlim e a abertura comercial das nações socialistas. Um presidente que aliou reconciliação com conservadorismo, conquistando e consolidando seu eleitorado. Dois anos antes, em 1979, Margaret Thatcher assume o cargo de primeira-ministra britânica, diminuindo a atuação política trabalhista na Inglaterra e, junto com seus parceiros americanos, fortalecendo o poder do mercado sem regulagem do Estado pelo mundo.

Entre 1982 e 1983, o roteirista Alan Moore dá vida aos quadrinhos de V for Vendetta, ambientado em uma Inglaterra opressora. Entre 86 e 87, nasce a liga de super-heróis Watchmen, que é uma paródia dos mascarados norte-americanos durante a Guerra Fria, especialmente nos Estados Unidos. Ambos os desenhos, além de integrarem obras importantes do século XX, mostram uma clara crítica de Moore, um escritor polêmico por suas crenças no obscuro e na bruxaria, aos regimes vigentes e ao conservadorismo no geral.



O herói V é um anarquista que luta contra uma Inglaterra dominada por um ditador, Adam, muito semelhante ao poder popular de Tatcher. Os super-heróis de Watchmen não possuem poderes especiais, exceto um homem de pele azulada e brilhante chamado Dr. Manhattan, que sobreviveu a experimentos nucleares e pode desintegrar, integrar e manipular todo o tipo de matéria, sendo praticamente um deus do mundo físico. Outros personagens, como o Comediante e a Espectral, refletem a natureza decadente de heróis afetados por uma sociedade que não os aceita, mais próxima da realidade, se um super-homem existisse.

Moore conviveu com Tatcher e Reagan e, ao contrário deles, teceu uma realidade crítica do fim da Guerra Fria e dos mundo real que vivemos, mesmo através de desenhos. Transformou mitos norte-americanos dos anos 50 e 60, como super-heróis, em espelhos de uma realidade suja das ruas oprimida por políticos que não estão em contato com o cotidiano comum. Seja pelo poder estatal ou das corporações em mercados livres, Alan Moore criou novos mitos críticos no último século que passou. Portanto, mesmo que você não concorde com o anarquismo de V, ou com os heróis comuns de Watchmen, é recomendável ver seus quadrinhos neste começo de século.

Lançado em 2006, a adaptação cinematográfica de V for Vendetta adaptou toda a mensagem anti-fascista em uma história mais contemporânea, envolvendo caça ao terrorismo dentro da trama original, além da poesia e dos dotes artísticos do protagonista. O filme transformou-se em uma interpretação fiel de quadrinhos. A mensagem de que V pretendia tornar a explosão do parlamento inglês um símbolo de sua rebeldia contra o governo e um exemplo para sua população alienada é mantido, revivendo os ideais de Guy Fawkes no século XVII.


Em Watchmen, na adaptação aos cinemas de 2009, o plano de unificação na Guerra Fria é transformado em várias bombas nucleares explodindo em diferentes locais do globo, e não um ataque alien, como no gibi, tirando um pouco da surpresa original. Mas todos os personagens característicos de Moore estão presentes, mantendo sua criatividade como autor do conservadorismo social, estampado em seus heróis errantes.

Apesar de rejeitar as versões cinematográficas de suas obras, Moore é um autor que deve ser reaproveitado em tempos de Barack Obama na presidência, com esperanças que o mundo aguarda de um novo Estado americano. Esses novos mitos na verdade não diferem do mundo pessimista de Alan Moore, que possui sim retratos ideais, mas que estão distorcidos pela realidade em que vivem, não sendo pura fantasia e mantendo sua conexão com a crítica, sempre válida socialmente e individualmente.
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sábado, 6 de março de 2010

Cineasta : Gaspar Noé


Dentre todos os diretores, nenhum parece ter sido capaz de superar o franco-argentino Gaspar Noé na expressão de um clima introspectivo, pessimista, cínico, desolador ou carregado de ódio.
Todo mundo que goste de filmes já ouviu o nome de Gaspar Noé associado à cena de estupro mais polêmica de todo o cinema. Ele é o responsável pelos aproximados oito minutos constrangedores em que Alex, personagem de Mônica Belucci, é estuprada e espancada em uma passagem subterrânea, na Paris de “Irreversível”. A cena supostamente tem a mesma duração que teve a violação da personagem; por ironia e diferente da estética visual que caracteriza o filme: câmera “bêbada” que mal pode parar de girar causando vertigem no espectador e iluminação baixa ou tendendo para o vermelho, nesta cena existe ótima luz e a câmera repousa despudoradamente no chão, bem em frente onde todo o ato ocorre, filmando tudo sem qualquer vestígio de pudor. Mas eu não acho o Noé cruel por causa desta cena. Tampouco pelo modo vertiginoso com que optou filmar este filme, que o deixa, sem dúvida, difícil; mas essa dificuldade não coincide com o motivo que me leva a considerar Noé um diretor cruel. A coisa dele pra mim não é visual, mas filosófica. Ele é extremamente pessimista e sua crueldade emana de sua filosofia. E ele faz questão de deixá-la gritar bem na apresentação, como se dissesse: “Prazer em conhecê-lo! Sou o Noé e sou um pouco pior do que o Cioran!” Para tanto, letras imensas surgem na tela durante “Irreversível”, sentenciando: “O tempo destrói tudo”.
Porém, o filme que melhor representa a crueldade filosófica de Noé é “Sozinho contra todos” (I stand alone, em inglês). Não encontrei outro que pudesse se comparar em pessimismo. O açougueiro, protagonista do filme, e que tem o início de sua história narrado no antecessor “Carne”, é um sujeito com uma lucidez seca e anti-dramática, e com uma carga tão alta de agressividade que só podemos pensar que irá explodir a qualquer momento. O filme é quase um monólogo da filosofia do Noé recitada pela boca de seu cruel açougueiro. Ele não poupa o espectador de pensar sobre coisas embaraçosas, como a terrível falta de conexão entre as pessoas. “Por que, afinal, os filhos mostram amor pelos pais?”, “Pode um pai ser amante de sua filha?”, “O único sentido da vida é foder”, lamenta o açougueiro considerando-se numa fase em que a realização do sexo é cada vez mais difícil. Estes são os pensamentos centrais desse filme indigesto. Aumentam a indigestão o hiper-realismo usado pelo autor, inclusive apresentando lugares decadentes e sujos de uma Paris incomum, particularmente o quarto miserável que o açougueiro aluga e a magistral atuação de Philippe Nahon como o açougueiro. Quem se dispor a refletir sobre a solidão e a miséria humanas conforme a mente de um ácido pessimista, sugiro assistir aos três filmes, na ordem em que foram feitos: “Carne”, “Sozinho contra todos” e “Irreversível” Por que o diretor é cruel: por sua filosofia extremamente pessimista.
texto parcial extraido do blog Cioranismos: http://cioranismos.blogspot.com/